O governo brasileiro apresentará à Organização Mundial do Comércio (OMC) queixa contra a União Europeia por causa da decisão da Holanda de reter uma carga do medicamento Losartan, genérico para hipertensão fabricado na Índia e destinado ao Brasil, e de devolver ao fabricante. Para o Itamaraty o episódio inédito foi marcado pelo uso "distorcido" do sistema de propriedade intelectual internacional, "supostamente apoiado em legislação da UE". Hoje, em reunião do Conselho Executivo da Organização Mundial da Saúde (OMS), a delegação brasileira protestará.

Em nota, o Itamaraty ressaltou o descontentamento com a iniciativa, "que põe em dúvida o compromisso dos países europeus com o acesso das populações de países em desenvolvimento aos medicamentos". A decisão holandesa foi a primeira a afetar diretamente as importações do País para o setor.

Os 500 quilos de Losartan haviam sido adquiridos pela brasileira EMS da indiana Dr. Reddy"s. Semana passada, a pedido da Merck Du Pont, detentora da patente, a carga foi retida no Porto de Roterdã, sob alegação de que o produto é protegido por patente na Holanda até novembro e a carga deveria ser considerada pirata. O secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Reinaldo Guimarães, argumenta que a carga não seria internalizada e que tanto o Brasil quanto a Índia não reconhecem a patente do medicamento. "Não se trata de remédio pirata ou falsificado. Trata-se de genérico."

A apreensão foi medida administrativa, não passou pela Justiça holandesa. O secretário considera o episódio "inaceitável" e "um perigoso precedente". "A rigor, trata-se de uma barreira não tarifária. Não há nada no acordo TRIPs (sobre propriedade intelectual) que permita uma atitude como essa." Para o ministério, a atitude ameaça o acesso a remédios essenciais, sob alegação de eventuais danos à propriedade intelectual

Fonte: OESP, 23 de Janeiro de 2009